Associativismo em debate: novas causas, novos públicos e outras formas de participar

A Nascente traz as novas formas de associativismo a debate, procurando refletir sobre participação cívica, renovação geracional, cultura popular, memória coletiva e o futuro das comunidades locais.

O marco dos 50 anos da Cooperativa Nascente tem servido não apenas para olhar para o caminho já percorrido, mas também para pensar o futuro. A partir dessa reflexão interna — sobre o que a cooperativa foi, o que é hoje e o que poderá vir a ser — nasceu a ideia de abrir a conversa a outras realidades associativas, outros públicos e novas formas de participação.

É nesse contexto que surge a sessão “Distintas faces do associativismo – Novas dinâmicas, novos públicos, novas formas de participação”, uma conversa dedicada aos desafios atuais do movimento associativo e ao modo como as associações continuam a ser espaços de cidadania, pertença e intervenção comunitária.

Para Miguel Santos, dirigente da Nascente e responsável pela organização da iniciativa, o ponto de partida está precisamente nesse momento de balanço vivido pela cooperativa. “O marco dos 50 anos da Nascente proporcionou um momento de particular reflexão, no sentido de percebermos mais profundamente o que a cooperativa foi no passado, o que é no presente e qual o caminho que poderá tomar no futuro mais próximo”, explica.

Essa reflexão, acrescenta, acabou por abrir caminho a uma proposta mais alargada. “Curiosamente, e talvez paradoxalmente, essa reflexão tão identitária alimentou a ideia de dar a conhecer outras identidades, possíveis outros públicos e novas dinâmicas associativas”, refere Miguel Santos.

A iniciativa integra o programa cultural comemorativo dos 50 anos da Nascente e pretende alargar a reflexão sobre o papel das associações num tempo em que as formas de participar, comunicar e mobilizar se têm transformado. Para além de contemplar o passado, a proposta aponta para o presente e para o futuro: que causas mobilizam hoje as pessoas? Que públicos se aproximam das associações? Que modelos de participação continuam a fazer sentido? E que novos formatos poderão ser necessários para manter viva a ação coletiva?

Miguel Santos parte da perceção de que o associativismo contemporâneo se tornou mais diverso. Para além dos modelos mais tradicionais, ligados muitas vezes à cultura, ao recreio, ao desporto ou à vida comunitária local, têm surgido novas dinâmicas associativas e cívicas em torno de temas como os direitos humanos, o apoio social, a integração de comunidades migrantes, a crise climática, a mobilidade sustentável, o direito à habitação, os direitos dos animais, a saúde mental, a cultura urbana ou os estilos de vida mais conscientes.

“O associativismo contemporâneo tem vindo a diversificar as suas temáticas e também as suas formas de expressão e participação”, observa. O aumento dos fluxos migratórios, por exemplo, tem contribuído para o aparecimento de associações e coletivos ligados ao apoio social e à defesa de direitos, mas também à divulgação cultural das comunidades migrantes e das suas expressões identitárias. Ao mesmo tempo, a crise ambiental tem impulsionado novas formas de ativismo, centradas não apenas na proteção da natureza, mas também em modos de vida mais sustentáveis, novas formas de consumo e outras relações com o território.

A habitação é outro campo que ganhou protagonismo. A crise no acesso à casa fez surgir movimentos cívicos que procuram dar resposta a desigualdades cada vez mais visíveis. Também a saúde mental passou a ocupar um lugar mais relevante, com a criação de grupos comunitários voltados para o bem-estar psicológico, o combate ao isolamento e a promoção de redes de apoio informal.

A estes temas juntam-se novas formas de expressão cultural e novos estilos de vida, particularmente em contextos urbanos: arte urbana, cultura de rua, alimentação consciente, atividade física, práticas comunitárias e projetos que procuram aproximar participação, criatividade e quotidiano.

Para além de estarem nas causas, as mudanças estão também na forma de comunicar e mobilizar. As redes sociais alteraram os canais de divulgação, permitindo uma comunicação mais imediata, visual e apelativa. Muitas associações e coletivos deixaram de depender apenas dos modelos tradicionais de convocatória ou divulgação e passaram a recorrer ao vídeo, à ilustração, à criação gráfica, a formatos digitais breves e a linguagens mais próximas dos públicos que pretendem alcançar.

Segundo Miguel Santos, “não se trata apenas de utilizar novos veículos para transmitir as mesmas mensagens”, uma vez que mudaram também “as linguagens e os formatos da intervenção”. Para o dirigente da Nascente, as associações e coletivos procuram hoje “novas formas de tornar as suas causas visíveis e de chegar a públicos que talvez não fossem alcançados através dos modelos tradicionais de comunicação”.

Essa transformação coloca novas possibilidades, mas também novos desafios. A participação digital pode ser rápida, eficaz e mobilizadora, mas nem sempre se traduz em envolvimento continuado ou presença física. O associativismo vive, em grande medida, da relação humana, da permanência, da confiança e da construção lenta de laços. Num tempo de comunicação acelerada, uma das grandes dificuldades passa por conjugar a agilidade dos meios digitais com a dimensão presencial e comunitária que sempre esteve na base das associações.

Outro desafio central é a renovação geracional. Muitas associações sentem dificuldade em atrair e envolver pessoas mais jovens. Nem sempre por falta de interesse nas causas ou nos valores defendidos, mas porque os modelos tradicionais de participação podem não corresponder aos ritmos de vida, expectativas e formas de organização das novas gerações.

“O desafio passa, assim, não apenas por ‘trazer jovens para as associações’, mas por reimaginar as próprias formas de participação, tornando-as mais flexíveis, significativas e capazes de produzir uma perceção concreta de impacto”, defende Miguel Santos.

A falta de tempo — ou a perceção da sua falta — surge como uma das principais barreiras. Num contexto de pressão sobre os rendimentos, dificuldades no acesso à habitação e exigências de conciliação entre vida profissional, familiar e pessoal, a participação cultural, cívica e comunitária pode facilmente ser remetida para segundo plano. A isto soma-se, por vezes, algum cansaço perante processos associativos que exigem continuidade, persistência e disponibilidade.

Há ainda uma sensação, sentida por muitos cidadãos, de que a ação coletiva produz resultados lentos ou pouco visíveis. As transformações que o associativismo procura promover são frequentemente graduais e difíceis de medir. Esse desfasamento entre a velocidade da vida contemporânea e o tempo longo da construção comunitária pode gerar frustração, sobretudo entre os mais jovens, habituados a respostas imediatas e a formas de participação mais rápidas.

Ainda assim, Miguel Santos sublinha que o associativismo continua a ser uma ferramenta fundamental de cidadania e intervenção. Uma sociedade democrática não se constrói apenas através das instituições públicas. Depende também da capacidade dos cidadãos se organizarem, participarem e colaborarem na construção do bem comum.

“As associações continuam, e continuarão, a desempenhar um importante papel de exercício e vigilância democrática”, afirma. Identificam problemas, dão-lhes visibilidade, denunciam situações, complementam a ação do Estado, representam interesses e grupos que poderiam permanecer pouco audíveis e criam espaços de participação, acolhimento e pertença.

Nesse sentido, funcionam como mecanismos de equilíbrio social. Permitem que necessidades e perspetivas diversas encontrem voz e cheguem à esfera pública. Em momentos de crise, esse papel torna-se ainda mais evidente. Perante acontecimentos extremos, catástrofes ou mudanças súbitas nas condições de vida de uma comunidade, as redes associativas podem atuar como uma espécie de amortecedor social, mobilizando pessoas, recursos e conhecimento de forma próxima e ágil.

O associativismo é, por isso, um tecido vivo, que se molda às necessidades de cada época e de cada território. À medida que surgem novos desafios — das alterações climáticas à inteligência artificial, do envelhecimento da população à integração de novas comunidades, da mobilidade às transformações demográficas — também as formas de organização dos cidadãos terão de se adaptar.

Essa adaptação não significa, porém, abandonar aquilo que está na origem da vida associativa. Pelo contrário. A relação entre cultura popular, memória coletiva e movimento associativo continua a assentar em elementos antigos e persistentes: identidade, pertença, ligação afetiva aos antepassados, responsabilidade perante o património herdado e vontade de o entregar às gerações seguintes.

“A memória coletiva não é um conjunto de fragmentos que possam permanecer retidos no passado, mas um testemunho contínuo, que se vai construindo e reconstruindo através das gerações”, considera Miguel Santos. É precisamente nesse processo que o movimento associativo continua a ter um papel decisivo.

As associações não se limitam a conservar práticas ou a cuidar de património. São também produtoras de cultura, identidade e memória. Ao recuperarem tradições, preservarem saberes, organizarem manifestações culturais ou criarem espaços onde as pessoas se reconhecem como comunidade, estão continuamente a atribuir novos significados ao legado que receberam.

Podem, assim, ser lugares de transmissão, mas também de reinvenção. Lugares onde os saberes, as práticas e as tradições não são apenas ensinados, mas vividos. É nessa experiência partilhada que uma geração pode transmitir à seguinte aquilo que recebeu, permitindo também que essa nova geração transforme, questione e atualize esse património.

Num território como Espinho, pensar o futuro do movimento associativo local ganha uma importância particular. Cada concelho tem desafios próprios, mas também recursos, memórias e identidades específicas. Miguel Santos identifica vários elementos fortes no território: a tradição piscatória e a Arte Xávega, a tradição feirante, o património ligado à indústria conserveira, a prática desportiva, o teatro, o jornalismo local e regional e o cinema de animação.

São áreas em que a Nascente encontra algumas das suas expressões mais marcantes. A estes elementos junta-se ainda o património natural e ambiental, nomeadamente a Barrinha de Esmoriz/Lagoa de Paramos, que constitui outro fator diferenciador da região e pode ser também fonte de identidade, conhecimento e mobilização comunitária.

A pequena dimensão do concelho pode trazer limitações, mas oferece igualmente oportunidades. Em territórios mais pequenos, os problemas tendem a ser mais transversais e as pessoas, instituições e associações estão potencialmente mais próximas umas das outras. Essa proximidade pode facilitar a articulação, a cooperação e a construção de respostas conjuntas.

É também por isso que a conversa promovida pela Nascente pretende deixar perguntas em aberto. Estaremos a assistir a um crescente isolamento social? De que forma devem as associações responder a ferramentas e tecnologias que podem substituir, ainda que parcialmente, capacidades humanas como a criatividade, a reflexão ou a relação? Como pode o associativismo adaptar-se às novas ameaças sem perder o essencial: a participação, a presença humana e a capacidade de ação coletiva?

A sessão contará ainda com contributos que procuram aprofundar o debate, nomeadamente através da participação da Professora Isabel Menezes, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, trazendo uma perspetiva ligada à psicologia, aos comportamentos individuais e organizacionais e às formas de participação cívica. O objetivo é simples: despertar curiosidade pelo associativismo e pela participação. Para Miguel Santos, a conversa não deve fazer com que todos sintam que têm de se tornar dirigentes associativos, mas antes deixar uma pergunta simples: “há alguma coisa que posso fazer e onde posso participar?”.

Essa interrogação talvez seja uma das mais importantes para o futuro das associações. Se queremos movimentos associativos vivos, é preciso criar oportunidades de participação desde cedo, envolvendo crianças e jovens, permitindo-lhes experimentar responsabilidades e perceber que a intervenção de cada pessoa pode ter impacto na comunidade.

“Quando as pessoas se juntam, organizam e trabalham em torno de objetivos comuns, a capacidade de intervenção individual ganha uma dimensão coletiva que dificilmente teria isoladamente”, resume Miguel Santos. No fundo, a proposta da Nascente é olhar para o associativismo não como uma estrutura parada no tempo, mas como uma forma de construir comunidade. Um espaço onde se preserva memória, mas também se imaginam respostas novas. Onde se aprende a participar, a cooperar e a intervir. E onde a democracia se exerce, muitas vezes, a partir de gestos pequenos, próximos e persistentes.

Por Joel de Oliveira
no Jornal Maré Viva 16 de setembro 2026