Ficção

Sabes que mais? Às vezes parece-me que vivemos num mundo que nós próprios inventamos. Decidimos o que é bom e o que não é, traçamos mapas de significados para nós próprios… E depois passamos a vida inteira a debater-nos com aquilo que inventámos para nós próprios. O problema é que cada um de nós tem a sua própria versão disso, por isso as pessoas têm dificuldade em compreender-se umas às outras.

Este mês, a sugestão é “Conduza o Seu Arado Sobre os Ossos dos Mortos” de Olga Tokarczuk, um “thriller ecológico mordaz, original e profundamente desconcertante”.

Nascida na Polónia, Tokarczuk é uma das vozes mais prestigiadas da literatura contemporânea. Ganhou o Prémio Nobel da Literatura de 2018, tornando-se a primeira mulher polaca a receber este prémio na categoria literária.

A protagonista deste livro, Janina Duszejko, é uma senhora excêntrica que vive numa cidade isolada, na fronteira entre a Polónia e a República Checa. É conhecida pelas suas teorias que ora são “loucas” ora são “heroicas”, o que nos levanta a questão dos limites da sanidade e da norma social. Durante o livro, vamos tendo a sensação de que Janina talvez esteja certa ou talvez seja só lunática, uma ambiguidade que se vai mantendo durante o livro todo.

Uma das partes mais interessantes deste livro é a forma como a autora combina o mistério, o thriller e a comédia, acabando a um certo ponto por passá-los para segundo plano, dando espaço a questões mais profundas, como a crítica ecológica, a violência, a relação com os animais, a religião, o poder, a misoginia e o envelhecimento.

“A prisão não está lá fora, mas sim dentro de cada um de nós. Talvez simplesmente não saibamos como viver sem ela”.

Falando um pouco da escrita da autora, achei muito interessante como criou um cenário atmosférico, numa aldeia pequena, coberta de neve, que nos transmite uma sensação de isolamento e nos dá um pequeno frio na barriga (até faz lembrar um pouco Fargo). Isto, juntamente com o desconforto, estranheza e sarcasmo que se vão proporcionando durante o livro, faz com que seja algo bastante diferente do “normal”.

Mais do que desvendar um mistério, penso que o foco deste livro é a crítica social e a reflexão sobre a relação entre o ser humano e a natureza. Janina Duszejko apresenta uma visão que nos faz questionar as atitudes da sociedade perante os animais e o ambiente.