Romance

A alma é uma realidade terrível. Ela pode ser comprada, e vendida, e negociada. Pode ser envenenada, ou tornada perfeita. Existe uma alma em cada um de nós.

Setembro equivale ao fim do verão, aos dias mais curtos, à mudança de clima e ao regresso das rotinas. Cria-se uma atmosfera tranquila e misteriosa e é a altura perfeita para ler um dos meus livros favoritos – “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde.

Publicado pela primeira vez em 1890, o livro foi criticado e censurado, devido aos seus temas considerados imorais e controversos. Devido a esta polémica, o escritor teve que alterar várias partes da história. O livro foi tão criticado, que chegou a ser usado como prova contra ele, no seu julgamento (1895).

Dorian, um jovem rico e atraente, tem medo de envelhecer e quer ficar jovem para sempre. Um dia, Basil Hallward pinta o seu retrato e Dorian deseja poder ser como aquela pintura, para sempre. E é exatamente isso que acontece. A partir daí, começa a viver sem se preocupar com as consequências dos seus atos. Embora ele permaneça jovem, o seu retrato envelhece e revela a verdadeira pessoa em que se está a transformar. Ao longo do livro vemos a decadência do personagem, que rodeado de beleza, luxo e prazer, torna-se cada vez mais vazio e egoísta.

Uma das partes mais interessantes é a forma como Wilde representa a verdadeira personalidade de Dorian Gray, através do seu retrato. Enquanto Dorian continua jovem e atraente, o retrato vai mudando e mostrando as consequências dos seus atos, fazendo-nos questionar sobre aquilo que mostramos aos outros e o que realmente somos.

O prefácio deste livro, considerado um manifesto das crenças do autor sobre a arte e a vida, defende que a arte não tem qualquer dever moral e existe exclusivamente para criar beleza.

“É o espetador, e não a vida, que a arte realmente reflete”.

Embora o autor afirme que a arte está dissociada da moralidade no prefácio, o romance faz-nos questionar sobre os temas como a moralidade, consciência e as consequências das nossas escolhas. Oscar Wilde utiliza o prefácio para nos desafiar a olhar para o livro como um objeto artístico, mesmo quando o tema é dar prioridade à beleza em detrimento da alma.

“Não existe tal coisa como um livro moral ou imoral. Os livros são bem escritos ou mal escritos. É só isso”.

Apesar de ter sido escrito no século XIX, é um livro bastante atual, que nos faz refletir sobre quem somos por detrás da imagem que mostramos aos outros, e sobre as consequências das nossas escolhas.