Livro do Mês Junho’26: “Na Terra Somos Brevemente Magníficos”, de Ocean Vuong

Estou a escrever porque disseram-me para nunca começar uma frase com “porque”. Mas eu não estava a tentar criar uma frase – eu estava a tentar libertar-me. Porque a liberdade, segundo me dizem, não é mais que a distância entre o predador e a presa

Em celebração do Mês do Orgulho LGBTQIA+ (Pride Month), destaco o livro de Ocean Vuong, “Na Terra Somos Brevemente Magníficos” (On Earth We’re Briefly Gorgeous), o seu livro de estreia na prosa.

Esta é uma história onde o narrador, Little Dog, explora os temas da imigração, violência, trauma geracional, sexualidade, identidade e masculinidade. O livro, narrado na primeira pessoa, é uma carta do filho à sua mãe vietnamita e analfabeta. 

Little Dog tenta compreender a sua própria história enquanto explora a relação complexa com a sua mãe e avó, mostrando-nos que os traumas estão muitas vezes ligados a contextos históricos e sociais. O protagonista apercebe-se de que conhece pouco sobre o passado da mãe e da avó, sobre as suas experiências no Vietname e sobre tudo o que viveram antes da emigração para os Estados Unidos. Ao longo do livro, o autor vai partilhando experiências da sua vida, desde a descoberta da sua homossexualidade até ao contacto com as drogas, enquanto procura dar sentido às histórias que herdou das mulheres da sua família. 

Em entrevista ao Público, em 2020, disse: “Interessa-me o romance autobiográfico como uma assimilação, quase como criar um caminho paralelo, carregado de perguntas. Não escrevi uma memória por não ter a coragem de fazer as perguntas difíceis à minha família; acho que sou demasiado fraco para isso. Faço-lhes perguntas difíceis e acho que desato a chorar. Escrevi o romance como uma maneira de fazer às personagens as perguntas que faria à minha família, como jogar o jogo de assimilação usando o poder da imaginação”.

Esta não é uma narrativa linear e convencional, alternando entre passado, presente e futuro da vida do narrador. O que torna este livro tão “brevemente magnífico” é a maneira como Vuong nos parte o coração em pequenos pedaços, através de uma linguagem complexa, poética e profunda. Uma carta que nunca terá resposta, pois vem de uma mãe que nunca poderá responder e de um filho que pouco entende vietnamita.

– Bárbara Bleco