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O sonho comanda a casa
Há casas que começam por ser paredes. A Cooperativa Nascente começou por ser uma conversa. Melhor: começou por muitas conversas, longas, inquietas, por vezes impacientes, num tempo em que a palavra parecia ter pressa de chegar à rua.
Há casas que começam por ser paredes. A Cooperativa Nascente começou por ser uma conversa. Melhor: começou por muitas conversas, longas, inquietas, por vezes impacientes, num tempo em que a palavra parecia ter pressa de chegar à rua. Portugal tinha acabado de sair de uma ditadura e o país aprendia, quase dia a dia, a usar a liberdade. Em Espinho, um grupo de jovens e alguns companheiros mais velhos percebeu que a democracia também teria de se fazer aqui: no jornal que faltava, no filme que não chegava, no palco que se improvisava, na canção cantada em conjunto, no debate aberto a quem quisesse
entrar.
A Nascente acontece desse impulso. Não necessariamente de uma certeza tranquila, mas mais de uma urgência partilhada. A 19 de janeiro de 1976, depois da rutura com a empresa proprietária da Defesa de Espinho, onde vários daqueles jovens vinham trabalhando graciosamente, colocou-se a pergunta essencial: avançar ou não avançar? A certa altura, alguém disse o que todos pareciam sentir: “Atiramo-nos ou não de cabeça?”. E a resposta foi unânime. Doze votos a favor, nenhum contra. Havia que criar um novo jornal e uma cooperativa que lhe desse corpo legal, mas o que estava em causa era maior: abrir em Espinho um espaço livre de intervenção cultural, social e cívica.
Seis meses depois, a 21 de maio de 1976, a Cooperativa Nascente apresentou-se publicamente no Salão da Piscina Solário Atlântico. Com ela surgiam o número zero do “Maré Viva” e o Cineclube Nascente. A noite ficou como data fundadora. O salão encheu, as cadeiras não chegaram, venderam-se jornais e autocolantes, preencheram-se fichas de inscrição. A primeira sessão do cineclube trouxe “Deus, Pátria, Autoridade”, de Rui Simões. Havia ali um sinal claro: a Nascente nascia para lembrar de onde se vinha, mas sobretudo para perguntar para onde se queria ir.
A cooperativa era filha do 25 de Abril e do seu tempo. Um tempo entusiasmado, mas também tenso, atravessado por conflitos políticos, expectativas enormes e desconfianças que demorariam a passar. Depois de décadas de vigilância, censura e limitação da vida associativa, qualquer projeto progressista podia ser olhado com suspeita. Ainda assim, a Nascente afirmou-se, com a convicção de que a cultura não era adorno, e muito menos um qualquer passatempo menor, mas mais uma forma de participação, pensamento, consciência e transformação.
Essa energia vinha de trás. Muitos dos fundadores tinham passado pela Secção Cultural da Associação Académica de Espinho, espaço que, ainda antes da Revolução, permitiu a adolescentes e jovens experimentar teatro, cinema, música, debates e formas de encontro pouco comuns na cidade. Aprenderam a estar e a ser em grupo, a discutir, a ensaiar, a projetar filmes, a ouvir discos, a desafiar limites. Quando essa secção foi extinta, o Teatro Popular de Espinho e o Coro Popular de Espinho acabariam por encontrar na Nascente uma nova casa.
Nos primeiros meses, tudo se multiplicou depressa. O “Maré Viva” ocupava boa parte das energias, com atenção às lutas sociais, ao custo de vida, ao trabalho nas fábricas, às condições de vida das populações e aos problemas da região. O cineclube programava sessões regulares. O Teatro e o Coro traziam novas formas de expressão. Pouco depois surgiriam o Centro de Fotografia, a Secção da Criança, O Espantalho – Teatro de Fantoches, o Centro Livreiro, o Centro de Estudos e o CINANIMA, que começou como ousadia e se tornou um dos festivais de cinema de animação mais persistentes do país.
A sede da Rua 62 tornou-se símbolo dessa transformação. O edifício, que antes acolhera a Legião Portuguesa, força de apoio ao Estado Novo, passou a albergar uma cooperativa cultural nascida da liberdade. A imagem é forte: onde antes se defendia a ordem autoritária, passou a ensaiar-se teatro, a preparar jornais, a discutir cinema, a reunir jovens, a imaginar projetos, a desenhar cartazes e a preparar festas. A cidade mudava também por dentro desses lugares.
Durante muitos anos, e sem o dizer, a Nascente foi uma escola. Uma escola de teatro, jornalismo, cinema, fotografia, música e cidadania. Quase ninguém chegava com formação específica. Aprendia-se ao fazer, com os mais velhos, com os colegas, com os erros, com a necessidade de resolver. Jovens de 14, 15 ou 16 anos assumiam tarefas que hoje pareceriam improváveis: receber convidados internacionais, montar exposições, preparar sessões, ensaiar espetáculos, distribuir jornais, tratar da luz, dos adereços, da bilheteira, dos textos e das imagens. A confiança era dada antes da experiência. Nada disto teria sido possível sem ativistas. A palavra pode hoje soar antiga, mas explica melhor do que qualquer outra a natureza da Nascente. Eram pessoas que davam tempo, ideias, mãos, noites, fins de semana, saberes e entusiasmo. Fizeram-no sem remuneração, muitas vezes sem condições, frequentemente com recursos mínimos. O segredo da cooperativa esteve nesse coletivo largo, intergeracional, onde os mais jovens encontravam espaço para crescer e os mais velhos ajudavam a dar continuidade, responsabilidade e estrutura.
Nos primeiros anos, a cooperativa chegou a ultrapassar os 1500 associados, número impressionante numa cidade ainda pequena. As festas de aniversário juntavam centenas de pessoas no Salão da Piscina. Manuel Freire, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho e Zeca Afonso passaram por esses momentos. O “Maré Viva” chegou a ser feito e paginado à vista do público. As Janeiras levaram o Coro Popular às ruas.
O Teatro Popular criou linguagens, cruzou-se com a música. O CINANIMA abriu Espinho ao cinema de animação internacional. Por todo o lado, a Nascente parecia dizer que a cultura podia nascer de uma mesa, de uma sala emprestada, de uma rua cheia, de uma ideia partilhada.
Mas nenhuma história viva se faz apenas de entusiasmo. A Nascente também conheceu cansaço, falta de recursos, crises, perdas e dúvidas. Muitas secções desapareceram com o tempo. O Coro Popular terminou em 1997. O Centro de Estudos, a Secção de Fotografia, o Art Pim, a Secção da Criança e o Centro Livreiro conheceram ciclos de grande intensidade e depois suspenderam atividade. O voluntariado que sustentara a cooperativa tornou-se mais difícil num país em mudança, onde as pessoas tinham novas obrigações, novas rotinas e menos disponibilidade para compromissos coletivos longos.
Houve ainda momentos em que o futuro pareceu mais estreito. O CINANIMA correu riscos, o Maré Viva atravessou fases desiguais, o cineclube desapareceu, a sustentabilidade financeira foi muitas vezes um problema. A Nascente teve de aprender a sobreviver em tempos menos generosos, longe da euforia fundadora. E talvez aí se tenha percebido melhor a sua força: a persistência de continuar, mesmo quando já não havia multidões, nem dinheiro suficiente, nem a mesma energia dos primeiros anos.
Ainda assim, a cooperativa encontrou formas de se renovar. Nos anos 1990, as “Noites de Allen” trouxeram novo público ao auditório e marcaram uma fase de vitalidade do Teatro Popular de Espinho. O projeto “À Esquina do Moderno” transformou, durante mais de um ano, um café central da cidade num lugar de exposições, música, poesia, conversas, teatro, dança e oficinas. Mais tarde, já no novo milénio, o CINANIMA reafirmou a sua importância, enquanto o Teatro e o Maré Viva continuavam, com ritmos e dificuldades próprias, a manter acesa uma parte essencial da vida da cooperativa.
A partir de 2012, abriu-se um novo ciclo. Uma direção maioritariamente jovem decidiu combater o
isolamento, repensar práticas e voltar a aproximar a Nascente da cidade. A cooperativa fez sessões
públicas, ocupou temporariamente um espaço central, reforçou a comunicação, criou propostas e voltou a chamar pessoas. O Animartes, o Fórum Nascente, o programa Outros Palcos, os projetos de educação ambiental, o ComViver, as atividades com crianças, os debates, os bailes e o NascenteJazz trouxeram novos públicos e novos associados.
Hoje, aqui chegados, as dúvidas são tantas quantas as certezas. Há a Nascente dos fundadores, dos jornais e do cineclube. A Nascente do Teatro, do Coro, do CINANIMA e das Janeiras. A Nascente das crianças, dos jovens, dos livros, da fotografia e da formação. A Nascente das crises e das reinvenções. A Nascente dos que já partiram e dos que continuam. A Nascente de todos, como sempre. Essa será a maior delas.
O propósito, esse, mantém-se reconhecível. Democratizar o acesso à cultura. Criar públicos. Estimular pensamento crítico. Valorizar a participação. Dar espaço às novas gerações. Intervir no território. Fazer de Espinho uma cidade mais desperta, mais exigente e mais capaz de se imaginar. A Nascente nunca foi só uma agenda de espetáculos. Foi, e continua a ser, uma ideia de comunidade.
Este suplemento abre-se com consciência. Não para fechar a Cooperativa numa fotografia antiga, mas para olhar para a sua história como matéria viva. A memória, quando serve apenas para embalsamar, pesa.
Quando ajuda a compreender o caminho, ilumina. A Nascente precisa dessa luz: a que vem do passado e a que aponta para o que ainda falta fazer.
Cinquenta anos depois, talvez a pergunta continue a ser a mesma daquela reunião de janeiro de 1976: atiramo-nos ou não de cabeça? A resposta só pode continuar a ser afirmativa. Porque a Nascente nasceu do sonho, cresceu apoiada na vontade e resistiu graças às pessoas. E porque, nesta casa, o sonho comandou a vida. E certamente continuará a apontar o caminho.