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1996 – Almada, Etc. & Tudo
Sobre a Encenação
Esta semana viajamos até 1996 e ao espetáculo estreado pelo TPE nesse ano, “Almada, Etc. & Tudo”, uma criação e encenação de António Paiva a partir da obra visual e escrita de Almada Negreiros, que se tornaria numa das produções mais marcantes destes 50 anos e que representa um momento de viragem na história do TPE. Estreado a 8 de março de 1996, tendo-se mantido em cena até março de 1998 (nessa altura já como repertório usado nas digressões pelo país em resposta a pedidos de festivais e grupos de teatro amador), o “Almada”, como ficou carinhosamente conhecido na memória dos elementos que integravam este projeto, constituiu o que podemos apelidar de uma renascença do grupo de teatro amador espinhense, pela tripla viragem que deu ao percurso do TPE. Para percebermos melhor o impacto desta produção dos idos de 90 é preciso perceber o contexto que o TPE enfrentava no início dessa década: depois do período áureo ,que se seguiu à fundação do grupo, durante o final da década de 70 e no início da década de 80, o grupo sente um influxo de atores na segunda metade dos anos 80 (principalmente fruto da consolidação da vida pessoal e profissional dos jovens membros que entravam, então na vida adulta construindo família); a acrescentar a isso, o ativismo associativo sofreu em geral uma perda de interesse por todo o país nessa mesma altura, com impacto particular para o teatro amador, que por todo o lado sentiu o desinteresse da juventude da época por esta arte. Assim, o grupo chega ao final dessa década com um espetáculo que, depois de anos com pouca representatividade, reúne alguns jovens das escolas do concelho, de que resulta o espetáculo com base em textos de Woody Allen, mas logo após o fim das respetivas representações acaba por ter um interregno que coincide com a saída desses jovens, a gravidez de uma atriz e a necessidade de António Paiva, como encenador do coletivo, interromper a sua colaboração por uns anos por motivos de formação profissional na área. Assim, o TPE chega a 1995, com apenas quatro elementos fixos (três adultos na casa dos 40 e um adolescente a fazer 15 anos), mas algum ar fresco trazido da participação nas janeiras de 92 a 95 de alguns jovens. Por tudo isto, e em primeiro lugar, o novo projeto, que começou a ser encenado no outono de 95, conseguiu trazer uma renovação enorme para o TPE que, não só vê o seu coletivo de atores crescer para cerca de uma dúzia, como recebe uma geração de jovens adolescentes do concelho que viriam a marcar o futuro do grupo e garantir a sua continuidade. Para isto contribuiu muito, também, o interesse que por volta destes anos começara a surgir dos jovens relativamente à representação, por influência da TV e cinema, mas com reflexos diretos na vontade de experimentar fazer teatro. Por outro lado, todo o estilo cénico do “Almada”, com cenas soltas a partir de uma recolha de textos, uma banda sonora invulgar e chamativa, figurinos pouco realistas e um cenário minimal (que seria reaproveitado em muitos projetos futuros do grupo), constituindo uma opção criativa de António Paiva que deu um estilo muito próprio e distintivo face ao trabalho dos grupos de teatro amador em geral, acabou por se tornar uma imagem de marca do TPE. Este é, talvez, o principal segredo da razão pela qual o “Almada” marcou tanto os atores e o público: a diferença na construção dramatúrgica, que apostava em cenas soltas e não numa narrativa linear; o humor que ferramenta base sem cair em graçolas fáceis; a cor e a criatividade espontânea e inspirada como recursos para tornar o simples e o barato em algo que dava nas vistas com impacto visual; e o fator diferenciador da utilização de músicas diferentes, de várias épocas, com um anacronismo que mostrava que eram mais do que simples grupo amador, mas sim um conjunto de pessoas que gostavam do que estavam a fazer por ser diferente e genuíno, sem olhar a rótulos e padrões estabelecidos. Finalmente, o “Almada” foi um sucesso de público que encontra poucos paralelos no concelho e na cena amadora do distrito, com uma vida em palco demasiado longa para o comum em termos de projetos de grupos de amador e que, ainda hoje, é inigualável na história do TPE (um total de quase 20 espetáculos, mais de metade dos quais em Espinho, a maioria no Auditório da Nascente). Isto deveu-se, em grande parte, a uma grande afluência de público vindo de escolas do concelho, mais precisamente de turmas do ensino secundário, cujos professores se disponibilizavam para trazer os seus alunos, e derivado disso a um grande passa a palavrar entre essa comunidade de jovens espinhenses que demonstrava interesse em ver um grupo com malta nova e gira a fazer coisas que tinham a sua profundidade e, simultaneamente, a sua piada. Num momento como estes em que o MV se associa ao TPE para assinalar a memória dos 50 anos do grupo, é importante falar de outro fator que muito contribuiu para que a memória do “Almada” ficasse tão enraizada e tivesse envelhecido tão bem: a reportagem fotográfica feita voluntariamente por Jorge Santos, fotógrafo e artista espinhense, cuja carreira se evidenciava nessa época com um percurso assinalável e diversos prémios, e que de forma abnegada e por amizade, disponibilizou o seu olhar muito especial para registar o trabalho dos ensaios do grupo. De resto, as imagens falam por si.
Excerto do Jornal Maré Viva da edição de 29 de março de 2023