Página Inicial > 1999 – Que Vão os Meus Generais Fazer?
1999 – Que Vão os Meus Generais Fazer?
Sobre a Encenação
Esta semana as memórias do coletivo do TPE remontam até 1999, aquando da celebração dos 25 anos do 25 de Abril. Nessa viragem do milénio, e de forma a assinalar o quarto de século da Revolução dos Cravos, o grupo de teatro estreou a peça “Que vão os meus Generais fazer?”. O projeto, inspirado no texto “Bury the Dead”, de Irwin Shaw, foi apresentado à meia-noite, de 24 de Abril, no Auditório Nascente. Em entrevista ao Maré Viva na edição de 22 de Abril de 1999, o encenador António Paiva explicava que a escolha da data se devia ao facto da peça ser impossível de representar antes do 25 de Abril. “O texto era completamente proibido, o espetáculo não teria qualquer hipótese de ser apresentado. Achámos que seria uma forma muito interessante de marcar o 25 de Abril (…)”, elucidava. Nesse mesmo artigo deu a conhecer a dinâmica estética da montagem, a diferente disposição do público na sala, as escolhas da banda sonora e as opções de cenografia. Os 25 anos do 25 de Abril Neste sentido, partilhamos um texto reflexivo, datado de 1999 (escrito também por António Paiva) sobre os 25 anos da Revolução dos Cravos que se comemoraram com este espetáculo. “25 anos faz hoje o 25 de Abril. Um pouco mais tem o TPE. E é com orgulho que o dizemos, recordando esses primeiros tempos de convívio e de vigiada resistência. Seguiram-se momentos inesquecíveis de entusiasmo e participação coletiva em que qualquer associação ou coletividade era pequena para as inúmeras pessoas que queriam assumir a liberdade. Montamos, por essa época, “A Gota de Mel”, de León Chancerel, um pequeno manifesto contra a guerra, que foi apresentado no dia 21 de Março de 1974 num convívio para jovens na Associação Académica de Espinho. Já após o 25 de Abril começamos a trabalhar uma peça sobre as colónias portuguesas: “O Canto do Fantoche Lusitano”, de Peter Weiss, que de imediato se considerou ultrapassada face à descolonização. Quem diria, passado tantos anos, que voltaríamos ao ponto de partida? Que, novamente, uma peça sobre guerra teria toda a atualidade, que Timor se manteria uma ferida dolorosamente aberta, que Angola não conseguiria encontrar os caminhos da paz, que a ambição e o desejo de poder continuariam a ditar as leis do mundo. Esta madrugada, em que fizemos questão de estrear este novo espetáculo, lembrando assim o fim da Censura – pois esta era uma peça completamente irrepresentável no tempo do fascismo – provoca-nos um doloroso conflito de sentimentos: a alegria da comemoração e do exercício da liberdade contra um desespero e raiva impotentes. Os inúmeros conflitos dispersos por toda a Terra, que existem de facto, para além da televisão, podem tornar-se problemas mundiais de gravíssima importância. Com consequências dolorosas para qualquer um de nós. Diríamos que, mais do que o otimismo fulgurante do 25 de Abril, torna-se de novo necessária uma serena e confiante resistência. Ao fim e ao cabo somos todos responsáveis por este planeta. E, já agora, lembrando todas essas revoluções que nos antecederam e formaram – façamo-lo com alegria”.
Excerto do Jornal Maré Viva da edição de 26 de abril de 2023