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2015 – Pois É…!
Sobre a Encenação
A 9 de Maio de 2015 o Teatro Popular de Espinho estreou o espetáculo “Pois é…!”, que foi criado a partir da vontade deste coletivo em criar uma produção original que abordasse alguns temas relevantes dessa altura e refletisse o ponto de vista pessoal de cada ator. Para esse efeito, cada texto foi cuidadosamente selecionado e adaptado através de um trabalho colaborativo. Pedro Costa, que fez parte desta apresentação, partilhou com o Maré Viva as memórias que guarda desse processo e da apresentação: “2015 levou-me até ao Teatro Popular de Espinho e abriu-se um mundo novo. Ou melhor, uma nova maneira de olhar para o mundo. Partindo de uma pesquisa de crónicas, ensaios e excertos genéricos sobre os grandes temas universais, passando pela recuperação dos textos que se foram pondo na gaveta (à espera de uma oportunidade futura) por serem curtos para um espetáculo, mesmo que bons, o espírito corria livre em redor da mesa. Um par de meses de pesquisa, discussão, em que a minha alma artisticamente crua se maravilhava com a mística daqueles gigantes do palco locais, enquanto aprendia que vidas inteiras, cidades, ideias podem caber inteiramente, mesmo que abstratas, num espaço amplo com chão de madeira e espelhos numa das paredes que nos servia de palco. Foi, também, uma oportunidade para conjugar criações audiovisuais com a dramatização dos atores, procurando uma experiência mais imersiva e apresentação de subtextos e comparações. O guião final entrelaçava pequenos pontilhados de atualidade – um ecologista marado, uma blogger farta das dificuldades da vida, considerações sobre a palavra “marmelada” e os seus vários sentidos – com excertos selecionados do ensaio “Graffiti”, de Julio Cortázar – escrito em homenagem a Antoni Tàpies, artista a quem pedimos emprestada uma obra para criação do cartaz. Os excertos foram apresentados em palco por uma tripla de casais em alturas diferentes da vida e das suas relações e cujo amor, embora não esquecido, não se sentia. Um paralelismo ousado com o amor que um artista sente pelo público e pela a sua obra, apresentado no texto original, que conta a história de um artista de graffiti que cria um mural marcante numa parede de uma cidade, mas que eventualmente desaparece, deixando o seu público desapontado e com o sentimento de vazio. Uma lembrança de que tudo, um dia, se pode esvanecer. A emotividade crescente do espetáculo atingiu o auge no seu final, com “Kobane”. Adaptado de uma reportagem jornalística sobre a guerra na Síria, secundado por imagens da Guerra dos Balcãs, lembrou a devastação das infraestruturas e da vida daqueles que são assolados pelos conflitos, pelas mortes dos seus entes queridos, pela desumanização do próximo. Mas também lá, o guião lembra, “a relva cresceu sobre o entulho” e “uma fonte conservou a cor”. Um toque de esperança e cor. E não é isso que a arte é na vida? Pois é”.
Excerto do Jornal Maré Viva da edição de 10 de maio de 2023